sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O Cancioneiro


Leonard Cohen


É simples o tilintar da folha, o canto alto do pássaro, é alto e é simples, e é fundo. 

Na distância vertical o vapor sobe e esfuma-se e o braseiro alumia-se e acentua-se, assim era o que fugia das mãos e o amor que teimava e vencia. 

Vê, se mesmo a treva, agora, não se tornou dócil, com o seu fruto incessante em correnteza, se a luz oriental não habitou o copo vazio, o cinzeiro apagado e a noite sem estrelas.

E sê baixo, para que tudo possas reconhecer recortado no mapa das estrelas. Deixa para a sabedoria o ser titã, alta e orgulhosa e na torre de silêncio és titã, alto e orgulhoso.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

um poema para uma traça



A Fenda No Casulo 

És uma brecha no mundo, para onde as águas das esferas caiem esquecidas. Faço soar os sinos do nosso casamento. Tu és o pássaro imortal, aurora após aurora, sobre montanhas. Os leões sobem para te cortejar e amam-te, porque devem morrer. 

A Carbonização da Borboleta 

Dormimos na neve como podíamos, para evitar passar a noite no bosque da aranha, e sonhámos com versos brancos com mais de cem linhas. De manhã, trepavas horrendamente de abismo em abismo, sussurravas e a chama das velas cintilava.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Exosfera





Como uma silenciosa estrela no espaço é toda a palavra. O processo que no iniciado desperta a natureza angélica é o poético. Primeiro ele é sensível à terra, ao mar, à carne, à sua habitação, à cidade, ao deserto e ao campo; às montanhas e aos vales, às ilhas, às praias e às florestas. Depois tacteia o que emana das pessoas, dos elementos, dos poderes, dos anfíbios e dos mamíferos. Medita na mente dos cientistas, dos filósofos, dos químicos, abre o crânio ao céu e ultrapassa os obstáculos. A seguir deixa-se ficar só com o que há de imediato. Dá aos outros o que ele não tem mas que é destes, e os astros descem à terra, ao mar, à carne, à cidade e às florestas. Sabe que o espelho das coisas o oculta, e que o fogo o revela. Por meio de incendiar o espelho pode depois olhar a natureza e observar a sua profundidade em extensão, as inteligências que a governam. Então, vestido das ideias afirma automaticamente o espírito, e ainda que as suas ideias não sejam universais, o seu espírito será. Caminha como uma imperatriz sobre o corredor vermelho do pecado, adquire a experiência de um tigre, cobre-se dos elementos da terra e desaparece nela. De si ficará só a força e estará vestido de fogo, as paixões, encurraladas, irromperão pela sua carne, o seu espírito como uma águia bicando o seu corpo e o seu corpo estrangulando-lhe o espírito como uma serpente. Mas direcciona todos esses elementos para o seguinte enigma: "No espaço vazio, o que significa a Ousadia?", os seus instintos fazendo-o silencioso como o caçador; e sem nunca descobrir a terra prometida, retorna um monumento da mesma, como um homem que, durante tempo suficiente, se fitou ao espelho, apercebendo-se que a maior porção da sua aparência jaz entre as sobrancelhas.

André Consciência, de um apotamento escrito aos dezoito anos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Cidade



modelo: André Consciência; fotografa: Eunice Correia



Não me viste, na casa do príncipe
Quando as paredes se pintaram com o verbo
E não sabias que um dia o meu corpo
Foi um cisne, compacto, invertebrado, e luminoso,
A arrumar os cantos da penumbra, da hera e de arruda,
As clareiras do vento, do coração e do poente
Junto aos lírios e aos precipícios, erguendo-me ao cair do mundo
Fendendo as árvores, baloiços por ancas.

André Consciência

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A Extrair O Símbolo


modelo: Eunice Correia
fotografia: André Consciência



A noite era quente, áspera com maresia, dela caia uma mão cheia de geada que ele via desaparecer no descampado. Segurava numa Lâmpada de cobre e pensava no amor, essa palavra a construir-se na abobada e a desconstruir as outras, as estrelas a escalar precipitadas sobre a cabeça das uvas dos dedos dela. A erva crescia-lhe nos pés e a aranha vermelha no peito cheio. Então, repetiam o mesmo nome, um nome que nunca se tinha escutado sobre o chão, a aranha subia a pétala de uma flor e todos os túneis seguiam para cima.

André Consciência

terça-feira, 14 de junho de 2016

MALAK

Malak XXI


I


A palidez do rio tremulava nas minhas faces. Abri uma clareira de ar com a mão a azular-se e colhi uma dúzia de búzios. Uma ave fitava-me na margem, chamuscada pelo Sol, e eu cantei um piar louco, desajustado com a voz dos anjos. Não te via, Deus, há tanto tempo. Procura-me. Dizia. Aqui, do outro lado do rio é sempre igual. Mas, pelo menos, depois deste rio não hei-de ver nenhum homem, fisicamente capaz e ausente, a querer ser uma rocha que nunca soube parar. Mesmo nas proximidades do lago e na região sulina do mar, os mestiços caminham de cabeça baixa, a cultura pesando-lhes sobre o pescoço. Uma vez, esperei durante oitenta e três anos num jardim do Golfo Pérsico, outra na costa oriental do Mediterrâneo, numa estreita península que se projectava para Oeste, quase uma ilha. A ave também lá estava, rubra, azul, a portar a glória da manhã mesmo na noite, mas só eu cantei. Raramente chovia, ainda que a precipitação não poupasse os planaltos circundantes e quedasse copiosamente. Havia uma árvore como as árvores em Casa, alimentada pelo rio que atravessa a Mesopotâmia, coberta de metais e pedras preciosas. Sentei-me e esperei por muito tempo, ganhei ramos, raízes, cascalho, e pus-me a brilhar, eu e a árvore, a ignorância, a selvajaria e a treva a rugir à nossa volta. Começou-se a levar ali pastoreio, aves e espécies domesticadas. E um casal, vindo de mundos distantes e centrais, alimentou-se dos meus cabelos, a sua existência animal não envelhecendo nem um dia. Quando acordei, a árvore ardia, o fundo do mar mediterrâneo a leste, que unia África a Sicília, afundava, e apenas as trevas exteriores haviam chegado. Aqui e agora, do outro lado deste rio, existe a voz seráfica de outro jardim. O concerto nunca acabou, e sinto que só eu canto...


II


Certa vez vi o Casal Celeste descer sobre um templo ao Pai Abandonado e dez dias depois, tornar-se homem e mulher. Recuperaram a consciência simultâneamente, de todos os tempos, de todos os lugares, mas vividos em par. Ergueram-se trôpegos, com três metros de altura, a pairar sobre Jerusalém, e os conflitos do mundo baixaram-se rasteiros, com um gemido longo, e calaram-se, perdendo a consciência, a personalidade, principiando a rir-se como crianças no convívio da família. O Casal também me viu, um peregrino ao meio-dia, e falando-me, a ave cantou na minha língua. Debaixo da Lua sentámo-nos, eu e a ave, a fazer planos para o dia seguinte. De manhã, erguemo-nos sobre os vastos jardins do mundo a beber o leite das nozes e o suco das frutas. Depois do meio-dia, punha-me a absorver a luz de certas regiões do universo. Então vimo-los subir os montes, prostrarem-se, a verter leite, um e o outro, dos seios. Sob o Sol, os seus corpos nus emitiam uma luz difusa, mas de noite a Lua vestiu-os e só as suas cabeças irradiavam, num uivo que alastrava a uma distância insondável.


Malak XXII

Tinha cruzado a fronteira que intersectava o meridiano e atravessado a estrada de quilómetro e meio para Sul e segui para Este, embrenhando-me nos vales, e transpus a garganta para Sul, embrenhando-me nas planícies, atravessei os montes e fui até às montanhas. Tinha no peito uma ferida já cintilante, no ponto em que Deus me mordera dois anos antes, algures nas montanhas sonoras. 

Deambulei depois disso pelo Oriente durante um ano, Comia camelos e cavalos selvagens e marcava as árvores com a minha mão. Depois de tanto tempo a ignorância dos homens ainda era para mim um enigma, com os pés em tumulto, a deambular, a urrar e a debaterem-se através da vida, arrastando tudo no seu caminho até morrerem. Os homens evocavam em mim uma qualquer raiva de fera, uma fome, como se violassem uma velha ordem. Imprimia estes princípios: nunca regressar para junto de um vivo uma segunda vez, nunca atravessar a mesma estrada nem a mesma linha férrea. Nunca louvar o Sol duas vezes no mesmo local da terra, embora ele sempre no meio-dia do céu. 

À noite, descia até às planícies e perseguia os macaco-leão, a vê-los rodopiar e fluir na sua própria massa, a poeira levantava-se como um fumo e eu recordava-me do Leite do Pai a descer. Os seus membros erguiam-se, as suas cabeças, e principiavam numa histeria que fazia o mundo passar pela sua passagem lentamente. Procurava qualquer indício entre eles que me indicasse quais marcar. Mas consumia as crias deixadas para trás, vindas de outro mundo, cegas e moribundas, translúcidas porque amanhecia. Alguma coisa tinha de rasgar o silêncio terrível.



Malak XXIII

No rio e nos rápidos pouco fundos e nas línguas de cascalho, não encontro o teu nome. Um bando de patos escuta-me a bater as minhas asas, distingo-os em lampejos ao erguerem-se contra o céu. A água forma remoinhos vagarosos e negros que luzem na margem do rio, e para além dos salgueiros-anões eu não encontro o teu nome. Se te chamar na paisagem escura, o meu lamento não terá outra origem que não a noite em si.



Malak XXIV

Havia dias que levantava as terras. Ateava piras nas montanhas desabrigadas e de noite, por vezes, afastava-me através dos prados e deitava-me no chão, no silêncio do mundo, e remirava a chama do firmamento por cima de mim. Nessas noites, pensava muitas vezes em Deus, imaginava-o sentado junto a um silêncio igualzinho àquele, numa paisagem em tudo igual àquela. Então, eu descansava, o halo sobre a minha cabeça a ocultar-se no Sol matinal, o Pai a converter-se num outro ser, desprovido de história, desprovido de futuro.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Asas de Musgo




As folhas caem lá fora e a beleza levanta-se. Tudo se ergue no ar, na luz do Sol. Eu fecho os olhos e penso em ti, sejas tu quem fores, de olhos abertos e eu de olhos abertos, fendidos no incêndio da escuta. E quando eu morrer, enterra-me no musgo, que as minhas palavras ganhem silêncio e falem. E o ruído constante do escombro colossal que é o mundo há-de-se chegar para o lado. Um abraço há-de vencer as distâncias, e um pardal pousará na margem plúmbea do rio, se amanhecer, as penas rubras e azuis, como brasas retiradas da fogueira e que, por uma vez, não se apagam. Talvez eu acorde, talvez esteja Sol sob os teus ornamentos exóticos e eu ouça os riachos das fontes a correr e pense que o céu é uma boca sem chão e a vida um balão alaranjado sobre os Olivais Primeiros.

André Consciência

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Eshter


dedicado à santa


O sangue correu para dentro
E docemente, correndo
Em enchente até aos recifes, 
Ela de pé delicado e cabelo de mel
Para acender a estrela no altar
E proteger a noite do seu despertar,

Espírito de Eva, no jardim sem espinhos
Abriu a boca muda num inchaço lunar:
Vaga que varre as baías, sonhos sem pé
Negro a dourar com a graça de virgens
Coração do meu coração a casar 
A noite em silêncio. 

E escala às estrelas em pulso com o Inferno
Alegra-te, dança, tremuleia e alegra-te
E que tudo esteja bem. 

André Consciência

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Lira Insubmissa, 25


encontrado por publicar: 

Lira Insubmissa, fragmento 25 

189 - Valentino, gnóstico do sec. II, afirmava que Cristo comia, bebia, mas não defecava. 
190 - João Erigena, teólogo do sec. IX, dizia que Adão podia levantar o membro como levantamos um braço. 
191 - O desacordo com a merda é metafísico, a merda não é imoral, mas põe em causa o criador. 
192 - Como foi dito, o Kitsch é um biombo atrás do qual se esconde a morte. 

193 - Os movimentos políticos repousam não sobre o racional, sim sobre imagens, representações, arquétipos, vocabulário, que no conjunto constituem o Kitsch político. 
194 - Em vez de "viva o comunismo", diz-se: "viva a vida". 
195 - Nos tempos modernos, não é uma questão de acção ou de não acção, mas de dar espectáculo ou nada fazer. 
196 - A intervenção assemelha-se a um grupo de teatro combatendo um exército.

André Consciência

domingo, 20 de dezembro de 2015

Soledad




Clap clap clap clap clap clap clap clap, assim. Três batiam palmas, um saltava para o meio, os transeuntes na escadaria a ver. Há alturas da vida em que ficamos novamente jovens, ou fingimos bem o suficiente para nos enganarmos. Mas de noite, chegava-me uma angústia, quando era para dormir. angústia. Levantava-me da cama, deixava-a a descansar e ia sozinho perder-me até começarem a assobiar nas ruas os que levam o lixo, os que abastecem os bares. Todos assobiavam. E depois as freiras a brilharem ao sol, os cavalos a começarem a preparar-se para o dia. Dirigia-me para o terraço do hotel. Ficava a comer, beber, fumar, à espera. Ela pegava em mim e levava-me para um jardim onde dormíamos ao calor.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Malak


MALAK XVIII

Caminho entre os homens, fico a conhecer-me neles. Ainda muito só, a graça divina a influenciar por onde piso com a minha imagem. O Mediterrâneo a meus pés, judeus, muçulmanos e homens de Cristo que me respondem mais a mim que ao mar, e eu sem pergunta alguma, de mais perguntas o mar. Sou carne e osso, o meu sangue não é o seu e por isso imaginam o supersensível, a habilidade metafísica. A sua razão a ganhar os meus sentidos, esmagam-se contra mim a chamar-lhe cidade. E só me compreendendo, libertando-se da sua experiente sombra, se poderiam conhecer.

Um dia largaram-me no Poço, onde fiquei muito tempo, a sentir as esferas que giram, a imutabilidade que as subordina e onde resido. Agora os homens despreocupados, a razão a fungar trémula nos focinhos húmidos, a verdade encarcerada.

Eu, que aqui fiquei, estive também em muitos lugares, mas visitou-me neste Agostinho, o cepticismo intacto, Boécio consolou-me e o tempo passou. Chegou um dia Chaucer, já esquecido de mim e a falar-me de honra e cavaleiros. Chegou Spenser que me deixou para companhia a rainha feérica. Ri-me de Dante, este sem prescrição para a incerteza, tão certo e galante. E perguntando-me da minha natureza, onde estava dependente a verdade última, lhe não soube responder, ou as leis por que opero, e nem o que é eterno ou transitivo. Dobrei-o, como a uma coisa sublunar, e condenou-me ao nome de Ilusão.

Aquando do Concílio de Niceia saí de dentro da terra e vivi a vida dos vivos, sendo pai para Al-Farabi, irmão para Avicena, amigo de Averróis e colega a Moisés Mamónides. Em Paris e Pádua ajudei a fundar universidades, caminhei com Tomás de Aquino, que fiz matar um homem na neve depois lhe pedindo a matasse, e a todos estes verguei, ao que permaneciam.



Malak IXI

No ano de 1300 reuni para mim uma alcateia de lobos brancos, cinzentos e cor de noite. Os outros diziam que transformava o cão no lobo e o lobo no cão, que do lobo fazia loba e da loba juntava o lobo. Talvez guiado por isto, um homem de nome Ockham veio depois comigo ficar nos terrenos nevosos, e lhe pedi que pusesse termo à vida do manto branco, como o fizera um dia a Aquino. “Se podes matar a neve, então também eu posso morrer”, acrescentei. 

Na manhã seguinte ataquei-o vindo de todos os ângulos do Sol, cego pelo brilho William nunca previa a minha aproximação. Respirava agora exausto e eu soprava-lhe palavras.“Disse-te um homem uma alegoria de sombra e caverna, mas é o Sol que te cega, e o Sol é a razão a si mesma voltada. Se fitas o solo, vês-me na sombra, e é na sombra que o Sol te mostra a exactidão.” Quando se levantou, disse-me “não há neve”- existiamos então nós e aquilo que havia sido neve se tornara Legião. Aproximei-me do apático homem, o beijando na testa, a seus pés me prostrando e abandonando-lhe a minha espada. 

“A seguir, terás ainda que me ter morto, e despirás o espaço e o tempo de absoluto, não multiplicarás as entidades dai resultantes para além da necessidade. Eu e tu seremos livres.” 

Mas o homem nada fez ainda que me ferisse, pois na base da sua mente velejava também um anjo, a existência limitando-o.



Malak XX

Caia o porto de Antuérpia e os monastérios mudavam de propósito. De um dia para o outro, Londres enchia o ar de gente. Shakespeare fundou o Globe Theatre, onde os outros iam para se rir, e depois surgia a conspiração da pólvora. Na Honourable Society of Gray's Inn conheci Bacon, mas foi muito mais tarde, que no frondoso Hyde Park me fiz visto nu para na carne um do outro nos assexuarmos. Nesse dia, sentiu-se pela primeira vez criança comigo, perguntou-me como se passavam as coisas no reino de origem. “Só há” disse-lhe “uma que tens a saber do Céu, se existe. E é essa coisa esta, que enquanto vos ocupas de classificar as acima e abaixo das nuvens, e o seu destino de acordo com a sua presente utilidade, os celestiais se admiram com que coisas geram outras coisas, observam, estudam e reproduzem o modo como isto é, assim progredindo além do que se conhece tal como está, e movimentando os astros.”

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Detalhe de "Eva"

Zdzisław Beksiński



Em carne vermelha apresentas-te
No varandim do teu castelo de adubo
A sentir os animais no verde camuflados
As doze estações a passar sobre as vinhas
Cor-de-rosa, a chuva que cai das nuvens azuis
Sem molhar o chão, para perfumar o mundo
E a tua pele ganha ouro, os teus olhos verde
O leão deita-se a teus pés e chega a noite grande
A telepatia a esbranquiçar-te os cabelos de mármore
Enquanto os oceanos expelidos por vulcões
Formam túneis de gelo e tu cantas a memória
Dos homens.


André Consciência

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A Vela Intermitente





Ele:

Ninguém me veja. Sugo o mel das colmeias, os raios do Sol, roubo os primeiros risos dos bebés e cubro-me a mim com um manto se adormeço. No Samein as raparigas chegam com risinhos e faces rosadas, coroas de louro, bolos e leite fresco. Abraçam-me acaloradas, lançam-me elogios sem sentido, oferecem-me laranjas e partem. A caminho, as bocas das borboletas terão os seus filhos, as mulheres chegarão a casa chorosas e de joelhos sujos, devorarão um bago de amoras e deixarão ao cacimbo da alvorada a porta aberta para mim. 

Ela:

Uma estrela caiu e deixou a noite sem Lua, um beijo lançou-se na chuva. A voz de Lorca morreu numa esquina e no largo ouvia-se a poesia sensual das línguas romanas. Alguém bebeu e conversa vestido de andrógino sobre o significado da vida, sobre a Escandinávia e os seus castelos, na vila abandonada. Ela tem meias rendilhadas acima do joelho e fuma antes de entrar no casebre, repleta de romantismo alemão, de agressividade passiva, de perfeccionismo e sarcasmo afectuoso. Chopin nos fones, Salvador Dali no Tablet, uma ficção de distopia no bolso e um desejo de voltar a sangrar da virgindade.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Moon River





De corpo pequeno e coração virgem, a menina com um sapo na boca abria timidamente os olhos selvagens e corria como um coelho, a cidade inteira não a via, e ela banhava-se no seu caos, dobrando-o, a beleza maior quanto menor o seu propósito. Aprisionara um leão dentro do crânio, um pardal no sexo, passava levemente e era poeta.

André Consciência

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Um Trilho A Ocidente






John Keats

Sonhei que caminhava sobre vidro no nosso espaço xamânico. Chegado a uma árvore alta, escrevi com um caco o teu nome no cascalho. Passei a mão pelo cabelo e murmurei-te: os teus lábios eram suaves e o Sol pingava ouro, o anoitecer lânguido com uma centena de pirilampos. A vela intermitente iluminava alguns títulos de livros e o cheiro do musgo chamou a chuva, a chuva chamou as flores, tudo era urze.


F. Scott Fitzegarld

Há uma relação directa entre a morte e a luz maior: no cemitério o fogo queima até a pedra e as estátuas deterioram-se, ou, se nos apaixonamos, a mordedura das borboletas degrada a lucidez, os olhos negros ganham um tom azulado e a pele empalidece. Quando se beijam, os amantes abrem os lábios, a vida escapa-se e a neve cai vermelha de alturas insondáveis, às quatro da manhã ainda estaremos a dançar de pijama e as estrelas a gritar com vertigem.

O dia a seguir nascerá bonito, e como todos os dias nascidos do bem convocará a tempestade, a manifestação das potências, a chuva de pó nas páginas amarelecidas da poesia, o cigarro sobre o álcool, as pisaduras nos braços que se estendem para a escuridão dos quartos sem saída, os Outonos nebulosos ou o gelo que faz brilhar as estrelas.


Franz Kafka

A esperança é chama baça. Visto um saco de plástico sobre a cabeça, e vou pelas ruas da nostalgia, a sorver a chuva com a língua, com os ossos rachados, com os fantasmas que aprisiono nos pulmões, as veias dos pulsos, o cheiro dos livros. E sou um soldado, de saco de plástico como elmo, a esperança a força gravítica que arrasta a luz a um buraco negro. Sento-me, a ouvir crianças, contam estórias dos mortos, o futuro é um calabouço.


H. P. Lovecraft

A certa altura da noite a morte estremece e morre. Por um momento não respira, antes de retomar o seu passo lento, e nesse momento o céu é de uma luminusidade estranha. Nada se explica, e essa luminusidade explica que assim seja. Camile Saint-Saens numa casa vazia, a olhar o céu numa varanda que se pisa sem testemunha, o silêncio a sobrepor-se ao gira-discos mesmo assim. Daqui posso ver o Oceano, a escuridão no seu seio onde tremem as almas dos meninos.


Jack Kerouac

É impossível estar-se vivo sem paixão, mesmo o suicida, no último segundo ama ainda a vida. Da mesma forma, é impossível ser-se terra sem extensão ao infinito, ser-se gente sem tontura, haver universo sem enigma e descoberta. É impossível o ideal que seja possível, possível é o vento que alastra nos cabelos e a neblina no crânio, a incerteza sobre os ombros onde existem as asas, passar-se pelas brasas ao Sol, guiar de noite com risadas e café, gritar contra o filho da puta do deserto um grito de vida, o esquecimento.


Edgar Allan Poe

O eu começa na intimidade de um segredo. Dizemo-lo e o crepúsculo apressa-se mais como se impelido por uma chuva súbita, o sangue seca e o licor derrama-se. E nenhuma flor na campa é um segredo até que murche. Olha, eu mordo um limão, o olhar enche-se de vidro e roço nos teus os meus lábios, a morte a pesar-me o coração, a perfeição no teu fim. A chama só é chama se auto-inflngida, a sabedoria só é nos olhos das aves negras quando calam o seu canto, e Deus quando há pó: menos nas estrelas que desmancham a pedra tumular, menos nos corações que sentem o calor das mãos fora do corpo, menos no espaço oco que há dentro dos ossos, ou no nevoeiro que é o horizonte.

domingo, 13 de setembro de 2015

O Funeral das Rosas




Na torre, os sonhos vão arder. Mulheres sentavam-se pétreas à porta do Inferno, os cabelos rapados, as roupas em uníssono, miradas pelos homens como se fossem nem mulheres nem homens mas juízes, os olhos a tomarem uma tonalidade sozinha, nuvens em cinza a invadir a tez vermelha dos lagos.


André Consciência

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

As Tiras de Ouro




Introdução

Dizem que o medo não magoa mais do que um sonho, como a felicidade não chega sem ser convidada. Depois, há os que acreditam que um abraço pode mudar um dia, uma semana, um mês na vida de alguém. Nada disto eu sei, e não parece que importe. Procuro continuamente a minha última esperança, os rostos da minha última luz cada vez que me despeço, e nunca mais me esqueço. De resto, fico acordado à noite, de noite pode dizer-se e ouvir-se qualquer coisa sem que se estranhe.



I

Quando se caminha sozinho na cidade é-se superior a todos os outros, a melancolia absorve os vestígios do desespero e desacredita a dúvida. O Sol não se espreita na fresta dos prédios, mas aquece nos vales cinzentos e dentro das janelas, quando a noite chegar deixando do dia só as brasas, os moradores não adormecem, tornam-se chamas pequenas a arder nos lençóis. E se, a caminhar sozinhos na cidade, vemos o absoluto, ele canta uma negação. 

Numa destas noites como as que descrevo, Lisboa encheu-se de pequenas velas nos parapeitos, seguiram-se oito minutos e uma criança parecida a um apagador subiu ao terraço, contou estrelas e árvores, a imaginar. Deixou-se cair.


II

As suas palavras calavam-no quando o beijavam. Mudo, vestia-se dos milheirais, esquecia-se do que sabia e atava tranças como quem aprende uma canção. Uma menina estava vestida de vermelho, usava rosas na cabeça, depois estava nua, um tornozelo na anca do rapaz, outro no ombro, ele uma espada em brasa. Um dia, a menina era menina e colhia frutos na falésia, o mundo ainda não existia. E possam amar-se, quando, se houver silêncio, adormecerem.


III

Somos estrelas. Caímos e olhamos para cima, para ver as estrelas. Sonhamos e com esse esforço suamos, um ranho a sair dos poros e dos sapatos escaldados, então pensamos: "só o melhor" e rimo-nos de tudo o que não são as estrelas, telefonamos aos nossos pares e separamo-nos. Engordamos, enriquecemos, tropeçamos no amor e sobrevivemos e os que voam morrem. Eu colocarei uma gola de renda ao teu pescoço, branca e frágil, e te agite nua, os teus seios uma alforreca que pulsa, eu trémulo e a largar maçãs. Todos somos fósforos no festival do fogo, e tu seguras um balão de hélio com os pés nus, as ancas levantadas, a profundidade morta.




IV

Alguém te deu memórias e se tornou memória. A beleza consome o pôr-do-Sol como consome os indivíduos, inflama o espírito e o espírito apaga-se, torna-se nas coisas mas já nenhuma coisa existe. Existem olhos nas máquinas fotográficas, olhos tão imóveis e fixos como o que somos quando ninguém vê, e a tua arte afoga-se nos miradouros, ele ganhava asas, não seria bonito ama-lo e seria amado, a sua casa seria um mundo, construída numa ilha sob uma ponte frágil e pisada com temor, a sua alma queimaria o teu corpo que envelhece. Nenhum anjo te pariu e não herdarás o mundo. Um dia talvez alguém te veja e as minhas mãos segurem dois círios.


V

Semicerrava os olhos e as luzes vestiam uma torrente de fantasmas à procura de casa. Então permanecia estóico, uma candeia na noite dos mortos, coleccionava as mãos das estrelas para salvar as estradas. Amarrava a escuridão numa parede branca, aguardava pelo tempo húmido, endurecia e penetrava-a, para que pudesse amar pelo menos o que havia de mais brilhante nos outros. Desabitava-se, e esperava que algum fantasma entrasse para um tinto e assombrasse a habitação com bruxaria nos lábios, mesmo que não ficasse muito tempo, porque as garras lupinas marcadas no chão atrás do caminho não deixam esquecer o tempo, e eu como sempre as flores ao primeiro sinal que murcham. Ao pico da noite descia às praias, não olhava a Lua, punha-se a pensar que lhe conhecia o rosto e todos os outros o cu. Descia às praias, esperava pela maré enchente e punha-se a arder alto, a desafiar as vagas, as palavras a afundarem-se e o crânio em lâmpada. Sim, atirava o coração às gaivotas e as estrelas caiam sobre a estrada. Depois a morte descalçava-se, descia o alcatrão incandescente aos risinhos, oferecia-lhe limões e chovia. Os dois sentavam-se, os vivos começavam a ouvir-se, com as suas lutas, as suas canções.


VI

Por vezes a nossa alma abre as pálpebras azuis e encontramos o lugar que os seus olhos habitam. De vez em quando pensamos no futuro, mas o futuro não vai por ali, entretém-se a escapar ao presente. De qualquer modo o Sol fica a brilhar, não é bonito, arde. Quando se põe restam as estrelas, calamos um choro, bebemos vinho, beijam-se as línguas e dançamos debaixo da Lua. Ou talvez olhemos durante muito tempo para um ecrã. Se calhar as mulheres sentam-se a escrever sobre relações. Eu levanto-me com os ossos debaixo do peso das vidas, a casa incendiada para dar melhor lugar à vista, o ouro cai e não é de dia nem de noite, os ossos caem a estalar sob os meus pés, os campos choram e eu colho as desesperadas violetas dos meus pulsos.



VII

Todos os dias, em algum lugar, espero que o céu me alcance, que o seu humor se torne como o meu ao longo do Sol. Por vezes a rádio passa aquela música que diz que alguém esteve comigo, mesmo nunca tendo sido. Afio a memória como se afia uma espada, e quando todos os seus ângulos são de cristal saio do carro de novo menino, colho laranjas, deixo a morte entrar: a erva, o amor, o fogo que ruge no Inverno, de novo a cor do céu.



VIII

Chegará o Outono. O Verão terá morrido bem, antes do tempo. Os adolescentes vão juntar-se no conforto de casa com uma bebida e a ver filmes de terror, a pensar que conhecem filmes de terror. As mulheres vão acender mais velas. Eu talvez arda uma fogueira, mergulhado num mar de folhas. Já não interessa o outro mar, a terra terá engolido o outro fogo e as fadas populado jardins secretos. No banco que abandonei, a tua mão terá caído sobre o meu colo. Num livro, estarei a beijar. E talvez chegue ao Inverno, talvez me livre do presente, com todo o passado, e me encontre exacto como a grande antiguidade.


IX

Quando viajamos, no momento em que encontramos despedimo-nos, por isso nos lembramos com nitidez das viagens. Mas ele apercebeu-se desde cedo. Rodeamo-nos de plantações, colhemos o que semeamos. E se desviamos os olhos dos milheirais, por um só segundo, sabemos que somos nós a colheita. Um raio percorre-nos o corpo, e nós somos o raio. Os outros agarram-se no escuro, à procura de calor, cegos para as ossadas. A ele, lhe fora dada calma, sorria para os homens, cuidava dos escorpiões e emudecia as mulheres.



X

As ruas vazias, o vento gelado a percorrer a cidade, a mulher com a lingerie número vinte e quatro num alpendre de madeira, a flor amarela no umbigo. Estou cansado das vozes no vento, dos objectos que populam as ruas. Há asas em mim e o mundo nas têmporas. Um génio consome-me o corpo. Se pudesse manter uma única memória lembrar-me-ia do Sol, o dossel de penas rasgaria o ar.



Prólogo


Um dia seremos duas pessoas que se conhecem novamente pela primeira vez. Acabaremos por subir à nudez dos sítios altos, voltaremos a pensar que temos mais dias do que restam, mas há sempre o silêncio, as janelas por dentro da cidade, o tempo que parece que mata e apenas morre. Não sei que dia é. Acendo um cigarro.



André Consciência

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Anel




O som subtil dos lábios que se separam num sorriso espontâneo cola-se ao ruído descontrolado da cidade de Lisboa, e um homem que colecciona os lugares colecciona as vidas. Lembro-me por exemplo dos teus pés frágeis, brancos na curvatura, a pisar as folhas do mato sobranceiro ao rio, a antiguidade muda da terra entre os dedos, a claridade de um fim de tarde que furava as copas a reluzir nos teus calcanhares, com todas as folhas, com a sonoridade móvel de todos os ramos. Dizem que na morte se torna tudo, e que se sabe talvez todas as coisas, mas é isto que é a morte, uma fotografia que está viva. E um dia voltamos aos lugares, estamos sozinhos a caminhar dentro do que também está dentro dos nossos, num anel de fogo somos os lugares e estamos a presenciar-nos, transparentes, quebrados, o Sol a atravessar as fissuras, a corrente das almas a resplandecer.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O Moinho




Quieto. O túmulo arde.
Silêncio. A brilhar tu pisas
Com um pé ferido
A luz que se abate nos meus
Olhos.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Onde Dormem As Âncoras




Os livros, os mares, os rios e os lugares, os pensamentos, o vento das horas que sopra no corpo dos dias, as manhãs e os sábados com palavras, a certeza nos lábios e o desejo nos beijos: tudo isto é a solidão da minha ilha, o fogo nas minhas mãos com as noites, os quartos, os barcos soprados pelas cidades, o choro dos saxofones nas ruas, o silêncio que espera a solidão de uma ilha e a arara nas minhas mãos.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O vento cantou para o anjo






I


Na escuridão, não distingo os teus movimentos ondulantes, mas sinto o prazer causado. À minha direita, numa laje enorme, vejo que foi esculpida a tua magnífica cabeça, a cabeça de uma ave, rodeada de chamas. O teu interior é vagamente iluminado por archotes e as paredes estão cobertas de mascaras e outros objectos esculpidos em madeira. Tiro da parede uma máscara que simboliza o Sol, como se me estivesse a rasgar ao meio. A luz é escassa e só forçando a vista distingo os teus contornos a mover-se de um lado para o outro. Enquanto isso, das profundezas da gruta chegam-me aos ouvidos os teus terríveis uivos de mulher. O gemido tenebroso torna-se num grito lancinante mas eu prossigo, e no cume da montanha de fogo, para leste, vejo o amanhecer, as folhas vermelhas exalam o teu agradável cheiro adocicado. A noite chega para nos tirar as formas e o tempo e depois a aurora, apaziguada, abandona o seu esconderijo, um pássaro de bela plumagem a passar por dentro de um arco em chamas.






II

O vento começa a soprar com força, atirando-me pedaços de neve para a cara. Viro a cabeça para baixo e luto contra o vento. De súbito, por detrás da cortina de neve, surge a tua elegante sombra branca. A subida íngreme e a neve que não pára de rodopiar à minha volta impedem-me de andar depressa. Uma das minhas mãos está queimada do frio. Há uma rocha suspensa e a nossa pequena cabana que está encostada à escarpa com o telhado coberto de neve, as janelas pendendo longas estalactites de gelo. Reparo nas tuas pegadas pequenas e leves que partem dali e sobem a montanha. 

A porta da cabana não se pode abrir por causa do gelo e empurro-a com o ombro. Lá dentro, na única divisão que existe, encontro a tua pele. A cama de madeira, uma cadeira e os utensílios de cozinha tantas vezes usados.

Agora o nevão de Verão cessou, o céu mostra-se azul e luminoso. A brisa é fria e agreste e a neve desfaz-se debaixo dos meus pés. Encaminho-me lentamente para a encosta até que encontro uma escarpa demasiado alcantilada para escalar. Resolvo circunda-la e deparo-me com uma autentica parede de gelo. O coração começa-me a bater descompassado ao avistar um bocado do teu vulto. Mais adiante, noto uma abertura na parede do lado esquerdo. Dirijo-me para ai e espreito. Vejo um homem muito velho a esfolar um alce. Ouço vozes a cantar ao longe e a tua gargalhada jovem ecoa pela câmara.

III

Lembro-me do Verão. A neve espessa cobria-te e um vento glacial saia dos teus ossos. Eu e tu gostávamos de seguir atrás das carroças, sem destino. Ás vezes roubávamos os tecidos, eu vestia-te deles e imaginava que me pintava com as tuas cores. Depois, bebíamos chás e trocávamos os tecidos por peles, peças de marfim e presas de mamute. A certa altura atravessámos um lago gelado e, ao longe, avistámos os picos cobertos de neve das montanhas. É Verão, e o Verão parece emergir das nuvens baixas. Neva continuamente, embora com pouca intensidade. Paro, fazemos amor. De súbito, o som de uma trompa de caça rompe o silêncio. Os teus olhos, de um azul-vivo, perscrutam o horizonte em busca de sinais de vida. A neve está tinta de sangue. Alcanço-te uma hora depois, com a noite já a cair, e descrevo-te o que encontrei. Fazemos um circulo, para melhor nos protegermos durante a noite, e no centro é ateada uma fogueira enorme. Sento-me perto dela, à conversa contigo. Reina uma atmosfera de nervosismo, mantenho-me atento a quaisquer movimentos do exterior. O nevão cessa finalmente quando nos preparamos para dormir, mas o sono demora a chegar. Quando acordo ao nascer do Sol, a fogueira não é mais que um monte de cinzas por onde sai um fumo que se mistura com a neblina da manhã. Não se ouve um som. A neve recomeça.


IV

Quando as imagens se fixam novamente, ganhas vida, batendo as tuas asas enormes. Da cabeça aos pés começas a cantar uma canção de embalar e os insectos ficam sonolentos, caem no chão. Reparo que o teu corpo se movimenta ao ritmo da canção. A fonte está livre.


V

Com um grito de dor cortas a tua própria perna. Tudo muda constantemente. De forma. De posição. Através de descampados sem fim talvez um dia encontre a jovem que segui. Mesmo que haja um frio anormal no ar, um nevoeiro sobre os caminhos de terra batida. E pelo caminho hei-de mergulhar a cabeça no rio coberto de neblinas, a minha pele ficará verde, coberta de escamas, sem mais medo da ave de fogo. E talvez ainda te veja delineada contra o horizonte, com o pulso feminino a esconderes-te atrás das árvores, a morte a cantar e a voar nas tuas mãos como se fosses o segredo da harmonia, mas o meu coração permanecerá nobre como o do lagarto, sem juízos, só com os demónios das planícies, uma centopeia gigante de barriga mergulhada nas águas brancas que uma massa de escuridão informe não consegue engolir. Então vou celebrar-te, a morte cantará com luz e destruirá completamente, contornarei o poço para te enfrentar. Os teus olhos rolarão para cima, deixando-te completamente cega. Seguirás às apalpadelas no meu vulto e eu serei a porta do casebre.


VI

Dirijo-me apressadamente para a saída da aldeia e fico a ver as portas de ferro e carvalho. Não tenho como me defender. Não tenho como me defender dos olhos brilhantes como pérolas que emergem do lamaçal, mas as árvores distorcidas e as plantas crescem, eu também.

Fora, atravesso os pátios dos palácios com um andar autoritário, as aves-peixe fazem-me continência, os planaltos arborizados alternam com vales belos e calmos, aninhando-se quase invisíveis entre penhascos escarpados, desgastados pelos rios. Ao anoitecer, viro-me para o espelho e pergunto o nome daquele lugar. O meu coração deixou de bater. Busco um local seco para descansar.

És tu? Como ninguém responde, sei que és tu. E de resto, ouve-se o som baixinho e típico de pés a correr. O meu rosto é uma mascara de fúria e dor, com os olhos a arderem devido ao que é libertado pelo deserto.





André Consciência

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Prelúdio




Casa, com o coração cheio de silêncio vi
Os olhos despedaçados das crianças
Crescer de novo para morrer
E brandas de loucura as crianças soterrarem
As mãos na cabeça larga demais para o corpo
O orvalho sedento beber-lhes a oxidação
E os sorrisos cortejarem e esquartejarem
O coração cheio de silêncio vi.

Casa, a soprar um vento escuro
E eu era um jardim soalheiro
Tu a sombra do palácio perdido
E as estrelas com que te lembro apagam-se
Nas paredes e quem me guiará
No baixio silêncioso das palpelbras azuis
Nos rostos que vão para dentro do meu
Até gritar o nome esquecido
E gritá-lo por o ter esquecido
Para lembrar o espírito do mal que grita
As formas brancas da luz com lepra nevam
E tu gravas-te na minha fronte.

Os pardais enchem as valas de morte
Cantam-te, e Casa,
Hei-de me afundar sob os carvalhos
E apagar o teu rasto
Com a mesma ira de seres incêndio.

André Consciência

domingo, 7 de junho de 2015

A Neve Derretia Num Beco Sem Saída




Olho a aldeia de vinho e secura
O Outono que entra e dependura
As cidades de fogo consumidas

Um vento escuro despe as mulheres ébrias
Da cor azul da uva, vidraças estremecem
Malditas, solitárias na noite calma
As feras negras adornam-se de lírios

Tornam-se loucas e o meu demónio chora.

André Consciência

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A Porta Azul




O mundo era natural para mim, eu estremecia e nos não tínhamos conhecido, era natural a morte, as mulheres, a sede e o deserto, as feras que se passeiam na areia indiferentemente próximas ou longínquas. Mas demorava-me nos pormenores e encontrei uma porta azul nas ruelas daquele bairro que fazia meu. Essa porta ainda estava fechada no tempo, no entanto, vi-me junto das retortas do clarão da água, junto de ti que cantavas o mar por lhe sentir a falta, e parecia que nunca tinhas levado ali ninguém. Desconfiado, enquanto fitava o pequeno prédio de fora, aumentei-me imenso, para me poder espreitar a sair pelas janelas como um incêndio. Nascia um teatro honesto, uma vida além da morte em que salões eram montados para receber a última nas suas pálpebras azuis de dia e multicoloridas pela noite. Subi só meio degrau, quase insensível, a confiar na sensibilidade do homem artista e afogado na tua pele que ainda desconhecia. As visões de fora e as visões de dentro todas a colidirem como um pesadelo: Um coelho subia a porta azul e uma chama diante das janelas projectava o Sol, o Sol iluminava igrejas só habitadas pelos gongos e o tinir dos sinos estremecia sobre os vales rochosos onde se movia a sombra do peixe maior. Uma torre enorme erguia-se reunindo avalanches em seu redor e nós nadávamos despidos na neve, com pétalas de rosa a brotar das gengivas encarnadas. 

Retomei o meu percurso. Então reparei, pela primeira vez, que nada se pode dizer sobre os lugares. 


André Consciência

domingo, 3 de maio de 2015

Lá Fora Era Verão




Todos os dias ao passar à porta de mim vejo expostas duas máscaras. Tu antes de mim, e eu, a sorrir como se soubesse que te enganava a minha felicidade. Tu és um anjo e a segunda vive acompanhada num deserto onde se sentam os reis de lábios gretados, com as suas coroas de machado a pesar sobre o bronze dos corpos duros. Nesse deserto sou fera abandonada ao seu sangue, com medo de si mesma e a devorar-te as asas-seio. Tu existires, anjo, e eu não dormir à noite, para verificar se dormirias no escuro um dia e como seria a tua beleza no sono. 

Não foi o mal que me levou a odiar-te, mas o teu bem. Porque quando te viam as formas móveis num lodaçal de serpentes, o corpo a gracejar a glória nos teus bicos de pés, a tua dança a escancarar as portas do silêncio para deixar sair feras com o sangue que contra elas se agita eis-me, a olhar-te como o homem invisível e iluminado que a candeia que deixas arder até ao fim revela. E ao revelares-me sou eu afinal a estátua imóvel com uma chama de pedra, para descobrir o anjo, e revelares-me é morreres para os homens de bronze. 

Comeste a comida das aves, mas o meu trabalho é retalhar as asas e esculpir o vento, fazer a areia dividir-se e receber as estrelas e afasta-te tu, pois degustarei os anjos como um homem que se supera na pedra.

André Consciência

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Fénix, Na Casa Luminosa




A Casa ilumina-se, uma fracção fantasmagórica do universo morto, o labirinto elemental das coisas onde a chama ainda se esconde. A casa ilumina-se com um ardor secreto para abrigar no seu subterrâneo um ovo amplo, fechado e sem paredes. Na cave, uma tocha com cabelos de fogo e corpo laranja dança, a sua força a do mar que mói o céu em espaço, a sua segurança a da beleza pura e cristalina da memória.

André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Um Tríptico, Na Casa Luminosa




Um rosto é sempre simples, dois olhos, duas faces, testa, queixo, os lábios; um instrumento simples, em bruto, com ele te conheço e com ele me conheces. É nos posteriores detalhes que nos esquecemos do que primeiro é o rosto. Nos detalhes representamos, e o corpo todo, porque segue sempre o rosto, torna-se superstição, imortalidade. 

Cada semblante possui os seus traços de tempos e épocas distintas, mas eu sou sempre branco, cabelos e asas alvas, olhos transparentes como duas bolsas de vidro vazias.

Pressentes muitas máscaras, tripticas todas, mas só uma te atrai, porque não tens ainda rosto para suportar os muitos rostos, e vais sonhar fundo, adentrando a dimensão.


André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Nilo, Na Casa Luminosa

Carl McCoy






Em vida, havia o costume de nomear as coisas, todas as coisas tinham um nome e até aquelas que não tinham nome eram evocadas com o nome das outras. A morte, no entanto, é muda, um ovo em corredor que atravessa a existência de uma ponta à outra e a materializa em símbolos. Não há um único som nesta sala estreita e comprida, é uma galeria de essências, expostas em vitrinas como carne no talho, mas intocáveis, impossíveis de tocar ou ingerir, porque em vida tocam, morrem. Ali, aquele indivíduo que era um clarinete, emoldurado, uma palavra que me terá chamado um dia e a que terei feito apelo. Uma caixa de música sem música e só com a dança, a bailarina de plástico rodando à vista de pessoas que foram fadas, dragões, tapetes persas suspensos no tecto como Inanna, carnal aos olhos de Ereshkigal. A morte não é cega, e ao centro do corredor que é o centro do mundo, um globo de madeira, renascentista, que ao girar se abre e deixa cair telas com o retrato de todos os pactos. Fico à espera que estas paredes caiam soterrando-me e me façam símbolo de mim. Espero, imóvel, contra a parede, emoldurado.



André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira

O Músico, Na Casa Luminosa




No claustro, o céu aberto ilumina o azul-branco do mármore em arcada, e o mármore, mais régio que o céu, mais monárquico e alto, lança o manto estelar sobre o jardim. O céu, enquanto pousa no labirinto de arbustos em espiral, ilumina o movimento do mundo, e da longa mesa de pedra a que me sento vejo a fonte ascendente, os raios de luz a atravessar a correnteza que flui para cima, como assim era e como assim será. O rapazinho de cabelo de neve atravessa as roseiras de água e sangue e sobe a pequena escadaria, sem peso dentro do peso, encostando-se a uma enorme harpa cuja cor é a cor das coisas e a mesa enche-se de poesia, os filósofos discutem o encontro dos rios, Lúcifer soa a primeira corda, os quartos-de-lua em ónix brilhante agitam-se sobre os transeuntes e sob a eterna aurora dourada.

André Consciência, baseado num sonho de Cátia Ferreira

sábado, 25 de outubro de 2014

Cinco da Manhã





De noite as portas abrem-se com luz. Todos aqueles que me olharam um dia sentam-se no interior, discutem a vida. Onde estou a voz selou-se e o destino é tudo aquilo que não pode ser dito. Permaneço afastado das portas, aqui ninguém me vê. Fosse o amor esta escuridão onde nada alguma vez chegou tarde de mais, um beijo completo, o horizonte desvanecido onde a vista clareia. 

André Consciência

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Acerto de Contas



Vive-se. As flores cobrem as janelas, deixa-se para trás a infância poluída para uma natureza feérica. As pétalas cobrem o tecto e ama-se. Acolhe-se a noite e é-se acolhido pela noite e a vida já passou e tudo retorna uma e outra vez, como uma redenção traiçoeira. Somos as pétalas. Um dia só escutamos o vento, os lábios já não beijam, as preces calam-se. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Malak




Uma manada de búfalos despertava num amontoado escuro. Cabeças altas, as caudas a agitarem-se, iam-se aproximando ao ver a minha luz tornar-se mais forte, apressando-se a alcançar a segurança do meu corpo, duzentas enormes formas bovinas com as suas cabeças armadas e espáduas negras curvadas. Os meus raios revelavam os pequenos pássaros brancos que pairavam em redor da manada, sempre prontos a desembaraça-los dos incómodos parasitas. Levantei-me, a juba roxa ao longo do dorso ainda erecta, um som que parecia os céus purpura da madrugada, que fazia a terra estremecer e agitava as aguas tranquilas do grande lago. 

André Consciência

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Malak




Mantenho-me no céu, nas árvores, e deito-me na erva do pôr-do-sol com os leões de juba negra, disforme no repouso, enquanto recordo a ânsia atávica do caçador. De manhã moscas verdes cobrem-me os olhos e entram-me na boca aberta, como o faziam de resto com os búfalos em que imprimia uma pegada de criança. Ao meio dia emano do ar aquecido, etéreo e semelhante a um chilreio. Os olhos brilham-me, como luas amarelas, e os cascos das colinas ardem. 

André Consciência

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

da Terra e da Lua




Um pássaro existe que vagueia sozinho no Sol, como uma sombra atrás da luz do fogo, uma memóra sombria. Veste um corta-vento azul e pode-se ver-lhe linhas de dor na testa, a cara pálida e luzidia de suor, os olhos aterrorizados num mudo apelo, a Palavra entranhada na boca. A cada passada, os metros tornam-se vastos como os céus e fundos como o fosso do inferno. Numa madrugada rosada sentámo-nos na borda do vale, com as penas penduradas, vestindo pijamas e roupão, nenhum de nós acompanhado.

André Consciência

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Lugar no alto da falésia




Subitamente, tínhamos chuva à nossa volta, fios de gotas a contorcerem-se na superfície da pele. O vento fazia-se sentir, atacava os seios reluzentes da mulher e fazia com que as minhas asas estremecessem.

Abracei-a através do nevoeiro, os contornos escuros e desfocados das baixas copas de árvore passavam pelas pontas das asas. Abruptamente, as cortinas encardidas de chuva e nuvens abriram-se e nós entrámos um no outro.

"Não assustes os leões", disse-lhe. E o Sol era uma grande e gorda bola de fogo a olhar com espanto para a planície sombria e cintilante de sal que se estendia. Avançávamos lentamente no calor, os pés cobertos de pólen amarelo.


André Consciência

sábado, 16 de agosto de 2014

A Vastidão



I

Ela caminha sobre uma inclinada encosta de arroz negro, os pés são muito brancos e felinos sobre as dunas. A pele dos braços com uma suave pelugem, as pernas entrecortadas pela saia longa de tecido fino, o leite do largo rosto proeminente. Com as sobrancelhas vermelhas fita o horizonte e não existe ninguém. O Sol é uma Lua e uma ave azul canta através do gelo cristalizado na ferida encarnada de uma bala, encostada aos ângulos mortos.

II

As árvores haviam crescido há muito. A ave azul era um rapaz. Uma estrela caiu para o seu cabelo. Ela prende-a no dedo e depois sopra como se sopra um beijo. O pirilampo esvoaça, apaga-se, e a ave azul partiu. Fita o horizonte e não existe ninguém. O topo das árvores ainda dança com os astros. O céu fica a deslizar para sempre, a noite a cair, os rios a morrer.


André Consciência

domingo, 10 de agosto de 2014

Limpeza total ao crânio





Vi-lhe o brilho, o tom do Sol
A espalhar-se sobre as cúpulas
As rosas, e as raparigas a correr
A nosso encontro, e o gemido da alma
Ecoou brevemente na beleza silenciosa

Sentada no trono uma figura pequena
Completamente descoberta
Era o símbolo vivo do amor:

Envolta em correntes
A mulher estava ferida
Ainda húmida
O rápido fumegar da ira amorosa
Nos olhos azul pálidos
A marcar-nos com os espíritos

Nós, fendidos nos pés
Pela sua chaga, corríamos mais rápido
Que os antílopes. Eu tinha uma pistola
Na mão direita, e apontei-ma.


André Consciência

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ao erguer um pouco o seu archote




O peixe senta-se no cadeirão
E o amor cambaleia ébrio
O caminho longo do rio
Beija as pedras.

Despejo o conteúdo do meu caldeirão
E ouve-se um berro no meio da ventania:
Contra os meus quadris
Recua o teu pé esquerdo.


André Consciência

A Lança




Sento-me, no colchão de palha,
À espera que alguém apareça,
O cabelo uma massa sibilante
A fera lamuria-se e principia
Um feitiço, enquanto num letreiro lê-se
«Sente o calor do sangue na tua porta»


André Consciência

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Uma Imagem Granulada


fotógrafa: Soraya Moon



Sobre o tórrido amarelo das casinhas e vielas debaixo
Do miradouro planando a Capital, uma criança de calcanhares
Em fogo atravessava os ossos pelo laminal frio do vento
No Verão.

De resto, eu apreciaria escrever
Sobre alguém morto, e que não tivesse de responder por nada
E a pequena está morta
Mas quando a noite se puser
Na hora do amanhecer, pela décima terceira vez,
Há-de o homem-pássaro dar-lhe uma bolacha e eu
Serei sempre partido ao meio e mastigado, com tudo por
Responder.


André Consciência

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cetim




O Palácio do dia exalava a fragrância
De bonitas jovens que sonhavam ser cortesãs
E nele um homem de pele enegrecida rugia
O pôr-do-Sol em meia centena de línguas. 


André Consciência 

domingo, 8 de junho de 2014

Músculo

Tu escrevias como quem tece
O feitiço das verdades que nunca
Cumpriu para as poder salvar
E dizias o tempo ganhava um corpo
Na espera e que a tortura dos alicerces
Em roda quando silenciados
Aproximavam os nossos vultos como
Feridas que se apegam às encostas

A "nascida do mar" tentava acalmar os animais
Nunca nascia, eu pensava que tinha
Fogo de artifício nas gavetas empoeiradas
Dos seus livros.
Eu cavalgava mas tu jogavas de ter um castelo
De cavalos para dormir.

O meu à deriva num mar
De vidro
Não caia qualquer chuva
As mãos de fogo lutavam com as velas
Algo enorme esvoaçava por cima
Da minha cabeça.



André Consciência

sábado, 24 de maio de 2014

O Pássaro

Durante e em expressão de um improviso das bailarinas Mary Nemain e Soraya Moon

 



Uma corrente de grinaldas
Atada à volta do tornozelo
Um trago de limão
Pelos dias e noites de Verão
Trilhos de serpente que fendem
O corpo em passo de dança
Fogueiras entornadas dos precipícios
Da manhã, o copo a cair
Para o movimento, o espírito
Deslumbrando-se de deslumbramento

Depois, a serenidade transparente
Dos dias se moverem em mim
Com a partilhada vontade dos astros
Os vulcões a apertarem-se no espaço
Entre a vida e a vida
A sensualidade a lavar o peso de ser peso
E a vida a rir-se por vida ser
E a morte, para longe entardecer

O meu corpo estilhaçado
A dançar por todo o lado
Porque a alma prende o fogo
E o vulto em desaforo
Alumia-se ao vulto e sem decoro
Cria a coroa de grinaldas
O tornozelo entre as almas


André Consciência

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Reflexos


Lá em baixo só haviam sonhos
Beijos, e velas de junco
E camas feitas por cantores
Depois, a escuridão,
O rio arder um pouco mais brilhante
A canção dos archotes tornar-se mais
Sonora, a olhar para um rapaz
Com as asas incrustadas de gelo
A pele arrancada de metade da cabeça
Uma centena de cogumelos a crescer-lhe
Lá em baixo, peixes cegos e brancos
No ventre, intemporal, vasto
Silencioso como a Terra Oca
Ou o Mar Sem Sol, a ouvir o que
Nenhum homem, os olhos divididos
A dourarem, a cantar para si próprio
Puro como o ar de Inverno,
Como a última brasa de uma
Fogueira morta, senhor do reino incendiado
Herdeiro de ruínas, a luz a crescer
Fina e aguçada como a lâmina de uma
Faca, as estrelas a tornarem-se estranhas
Como círculos de ferro, os dias destronados
Pelo Sol, os anos soterrados no solo
Os séculos desfeitos em água negra
Que banha muito grávida e nua a mulher
De cabelo de nevão.


André Consciência

segunda-feira, 19 de maio de 2014

RAMMSTEIN; Wilder Wein (1998)

V. M.

 




Vinho Selvagem

Apresento-me
perante o teu castelo
E anunciam o regresso
apenas ao rei
Deus esteja comigo
e abra os teus portões
molhados e mornos
lentamente

perante o teu regaço
foi escrito
Profundo na água
"não atravesses"
Mas o meu desejo
troça das asas
como um pombo
febril e húmido

Diante a escuridão
transformado pela luz
escondido
indefensável
eu aguardo por ti
no fundo da noite

só uma uva
e amargo como neve
aguardo por ti
no fundo da noite.

tradução livre 

por André Consciência

domingo, 18 de maio de 2014

Saco de Estrelas




Ouvia-se as raparigas a ladrar enquanto corriam para casa
O tamborilar de pequenos calcanhares nus sobre lajes
Lá fora, debaixo do frio céu outonal, os rapazes estavam a jorrar,
E o vento varria as planícies onduladas.


André Consciência

sábado, 17 de maio de 2014

Coxas Fumegantes




As suas lágrimas eram
Chamas, a sua língua brasas
E cinza, e as estrelas de manhã ainda pairavam
Suspensas sob o bréu.

Entravas pela janela
Na forma dos flocos de neve
A flutuar no vento
E o meu rubi pulsava
E os lábios transformavam-se em dentes. 


André Consciência

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Branco Como O Osso Antigo



Só as árvores, infindáveis árvores
A submergir a torrente de folhas mortas
E castanhas, em verde vidência
O campo ensopado por caules mortos
O trigo apodrecido, depois um archote
A árvore a entrar em erupção
Aos uivos, as estrelas descerem os olhos
E vertendo das hastes a arder
O veado negro faz-se escoltar
Por crianças despidas, os seus cabelos
Um milheiral sobre a face
Da Lua. 

André Consciência

terça-feira, 13 de maio de 2014

Corre no Sangue




Luz das estrelas e espuma do mar vestiam-na
A donzela, tímida, estava amarrada
Harmonias de prata estrondeavam no seu crânio
Como um cão, eu roia-lhe as orelhas
E, de um lado, cabelos tão vermelhos como o sangue
Caiam-lhe até aos ombros em caracóis oleados.

Um leopardo aos nossos pés,
De língua negra,
Avermelhava-nos com sombras escarlate.


André Consciência

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Pecado



Os homens gemiam sob uma lâmpada tremeluzente
Flores de sangue haviam brotado nas feridas abertas
Como lábios rechonchudos de uma mulher.

Á superfície, um enxame de crianças coradas
Construia neve. E uma mulher de sal
Com um semblante queimado pelo vento
Presidia.


André Consciência


O Palácio do Amor




Tritões de mármore iluminavam o caminho enquanto
O vento vinha aos gritos e uma rapariga nua saltava
Em cambalhota. Acima, a Lua cheia nadava no céu negro,
Ruborescendo homens de pedra enlouquecidos
Pela fome, e eu procurava um Sol
No interior da névoa. 


André Consciência

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Filha dos Campos Dourados




Para lá da água a escorrer-lhe entre os seios
Cintilantes ao Sol
Cantavam rouxinóis quebrados pelo vento.

A leste, a escuridão juntava-se atrás
De uma ilha rochosa. 


André Consciência

Agora estavam a latejar





O fogo tem sempre fome
E com o calor a cobrir-lhe a cara
Ela estava em pé por cima de mim
Agarrada ao meu archote
E a uma tristeza que pensei talvez
Quebrar-me no peito.

Sob um manto de folhas
Os meus olhos estranhos
Fendidos e dourados
Reflectindo de volta a luz do meu archote
E um cabelo de Outono
A cantar uma canção de terra
Aos teus pés
Deixei crescer uma grossa
Raiz branca a deslizar para dentro
E para fora, o coração com medo
raiz agora grossa como a perna
E a criança que não era criança
Movia-se depressa
Uma ponte natural sobre o meu
Abismo escancarado
A pele branca excepto
A mancha sangrenta que lhe verti
Até à bochecha.

Agora, a minha raiz penetrava
A carne da sua coxa
E emergia do seu ombro
Com rebentos de folhas vermelhas
E brilhavas uma lagoa de sangue

À luz do meu archote. 


André Consciência

Prata Martelada




Lágrimas frias pingavam sobre eles a cada passo
Mergulhados na sua própria lagoa de silêncio
E fogo, a soltar baforadas no frio
Se a manhã viesse seriam crianças
A dormir no jardim com cem borboletas no dorso
A subir uma árvore, a apanhar peixes
Nas mãos, sem que a Casa houvesse deles caído
Pintando em tons de marfim e prata
Mil telhados abaixo dela, enluarando fossos
E pirâmides e eu sozinho,
Os meus dragões a rugir na escuridão,
O vento nas árvores de fruto e a palidez
Da mariposa do jardim, as estrelas a tapar
A Grande Porta. 

André Consciência